Nascido no Rio de Janeiro, alê souto estudou com Ana Bella Geiger, Luiz Ernesto e Cristiane Brito Frequentou seminários com Ricardo Basbaum, Rosangela Rennó, Arthur Omar, dentre outros. Cursou O séc XX e suas interfaces na Escola de Belas Artes – UFRJ em 2006. Estudou recentemente no Centro Cultural Oduvaldo Vianna FIlho com Ricardo Maurício e no Parque Lage, com David Cury e atualmente estuda no mesmo Parque Lage com Franz Manata.
Dentre as exposições coletivas destacam-se:Cologne in Colônia no Museu Bispo do Rosário, 2005. Imaginário Periférico na Galeria 90, 2005. O saco é o limite, no Cenf. e Fundação Ormeo J.Botelho , Nova Friburgo,2006. Localizações no Sesc São Gonçalo, 2006.Geringonça e Migrações todas no Sesc, sendo a última itinerante.EM 2007 expôs Desmanche na Galeria A Gentil Carioca no centro do Rio de Janeiro, em uma coletiva com artistas de todo o Brasil e Exterior.
Participou das seguintes individuais: A Reconstrução Humana na Sala Jaci Freire 2004; Dilemas no Sesc Madureira,na Sala José Cândido de Carvalho(Fundação de arte de Niterói, em 2006, e no espaço cultural do CREA em Petrópolis em 2007.LavaJato, no Sesc São João de Meriti, 2006.
Integra o coletivo Imaginário Periférico e realiza intervenções urbanas pela cidade.
Atualmente desenvolve seus trabalhos no atelier na Rua Joaquim SIlva 71 ap 101 na Lapa - RIo de Janeiro
Textos Críticos Sobre o Artista
Alê trabalha na linha do minimalismo precário, com caixas e recortes de papelão, compondo estruturas volumétricas no espaço, escolhidas por sua efemeridade e fragilidade. As formas dessas estruturas, muitas vezes, são coberturas de objetos urbanos, como carros, bancos de praças. Um sinal de que o objeto foi apagado, não existe mais. Sobre as caixas de papelão, o artista pinta linhas que compões por sua vez volumes virtuais cúbicos. Conforme o artista, “o desenho tem a função de delinear o percurso do objeto no espaço que ele ocupa”. Só que o objeto não está mais lá, e apenas o desenho registra as possibilidades de comunicação dessa presença que não existe mais.
As caixas de papelão são matérias concretas no espaço, mas designam a ausência do objeto, sua “anulação”. O desenho sobre o papelão, por sua vez, é pura virtualidade. E assim o artista cria um paradoxo conceitual: ele constrói uma desconstrução, entrando no cerne dos dilemas de comunicação da arte contemporânea, que cada vez mais se vale de materiais efêmeros que pulsam no território do precário. No caso específico de Alê Souto, seu trabalho também assume uma dimensão política, já que denuncia a violência selvagem das muitas desaparições urbanas.
Mas em sua intervenção na vitrine da Plano B, Alê Souto preferiu dar continuidade à sua pesquisa mais recente, calcada em pictogramas muito despojados, que constroem uma narrativa visual do tipo estória em quadrinhos, com leituras e significados abertos para a sensibilidade e interpretação de cada observador. O artista montou uma espécie de biombo na vitrine: uma estrutura de madeira e papel, sobre a qual pintou, do lado esquerdo, a frase “Me ajuda a voltar para casa” e, do direito, a seqüência de pictogramas que contam a estória desse pedido de socorro, que tanto pode ser verdadeiro (uma pessoa que foi roubada e precisa realmente do auxílio alheio para retornar para casa) ou falso (o velho truque do falso assalto, que ainda hoje é aplicado nas ruas do Rio de Janeiro). Assim o artista joga ironicamente com o duplo sentido da solidariedade: o atendimento ao pedido pode ser uma resposta fraternal generosa ou a queda na cilada de um golpe. O resultado é o desvelamento das tensões dos encontros e desencontros humanos na vida difícil e incerta das grandes cidades.
As palavras do pedido de socorro, além de seu sentido literal, que dá um título à intervenção, configuram também uma imagem, na qual as palavras se derretem umas sobre as outras, fundindo as letras num grafismo que lembra as artes urbanas de rua, as pichações dos muros e paredes da metrópole. Aos pés do biombo que ocupa a vitrine, Alê colocou umas poucas pedras portuguesas, iguais às que existem na calçada em frente à galeria. É mais uma vez a rua que ganha potência e se instala no espaço da expressão artística, num gesto político que deselitiza a natureza do ato criador. Com um trabalho que também remete aos pictogramas do homem das cavernas (aurora da arte), o artista continua praticando seu minimalismo e apostando em materiais precários, que caminham corajosamente na contracorrente da sociedade do espetáculo que nos ilude cotidianamente através de imagens e seus poderes de falsos brilhantes.
Mário Margutti
Novembro de 2007
EXPEDIÇÕES
Nota sobre la obra "Empilhamento" do artista Alê Souto, exibida no Museu da República no RIo de Janeiro
Nas cidades, as pessoas estão expostas contantemente à convergência de espaços. Pontos de referência são criados a partir das mudanças nos caminhos, e é desde aí de onde saem as linhas que aparecem no trabalho do artista Alê Souto, que ele percorre caminhos pelos subúrbios do Rio de Janeiro como se fossem expedições. Seus desenhos tem em comum pontos de flexíveis que marcam o ritmo da vida em uma cidade.
As linhas vermelhas sobre as caixas são como a letra de uma canção de sobrevivência. Um refúgio ocasional, um módulo funcional para o espectador que necessita encontrar um paralelo a sua inestabilidade.
Estes mapas urbanos transmitem confusão, longe de serem guias, são nexos entre a arte e este caminho que decidimos tomar.
En las ciudades las personas están expuestas constantemente a la confluencia de espacios. Generándose puntos de referencia, a partir de los cambios de recorrido, es desde allí donde salen las líneas que aparecen en el trabajo del artista Alê Souto, él realiza recorridos por los barrios de los suburbios de Río de Janeiro que acontecen como expediciones. Sus dibujos tienen como constante a puntos de inflexión que marcan el ritmo de la vida en la ciudad.
Las líneas rojas sobre las cajas son como la letra de una canción de sobrevivencia. Un refugio ocasional, un módulo funcional para aquel espectador que necesite hallar un paralelo a su inestabilidad.
Estos mapas urbanos transfieren confusión, lejos de ser guías, son nexos entre el arte y ese camino que decidimos tomar. - (fotos de Alex Topini)
Marcela Gallupo Rosário - Argentina
Cubismo Alê Souto trabalha com caixas, geralmente de papelão, cobertas com desenhos esquemáticos (de cubos!) em linha grossa e vermelha. São cubos que desmancham cubos.
Não por acaso, Desmanche e Empilhamento servem de chave para o que estamos vendo. O primeiro é um carro, na rua, coberto com papelão de embalagens desmontadas, pintadas com linhas que se prolongam pelo asfalto. Junto ao meio fio, Desmanche parece um carro de brinquedo que cresceu, esperando algum personagem de desenho animado que vai ligar a ignição e sair por aí. As linhas refazem num outro plano os cubos desmontados para cobrir o carro. Carro, papelão e desenho se desfazem um no outro, enquanto a rua e o meio fio deixam a dúvida se afinal isso vai ou não vai sair andando. Empilhamento usa a mesma estratégia, mas como as caixas estão montadas, os desenhos só criam volumes mais ativos com o empilhamento. Aqui a ação soma os blocos, ativa o desenho (e desmancha o conjunto). Duas ações opostas definem o trabalho de Alê: sem fim nem começo muito claros, ele prossegue para todos os lados, desfazendo o espaço num cubismo peculiar e irônico.
Carlito Carvalhosa
Muito além do papelão
A arte urbana de rua começou a ganhar força no final dos anos setenta, com a cultura do grafite em Nova Iorque. Foi por meio dessa arte, chamada na época de “neo-expressionista”, que Jean-Michel Basquiat ganhou notoriedade, assim como Keith Haring, ao desenhar a giz nas estações de metrô daquela metrópole americana. Desde então, jovens artistas da cena underground do mundo todo encontram nos muros e paredes de suas cidades o suporte viável para expressarem suas idéias, e de quebra, terem um público certo que transita diariamente entre suas obras. Muitos talentos saíram das ruas diretamente para as melhores galerias de arte e salas de exposições.
No Brasil, temos uma lista considerável de artistas transgressores que foram marginalizados e atualmente muitos deles exibem seus trabalhos em disputados espaços culturais e transitam com desenvoltura nos grandes eventos das artes visuais. O Rio de Janeiro, que acolhe com algum esforço o legado do Profeta Gentileza é cenário de uma explosão multicolorida de desenhos, formas e traços (autorizados ou não) desses artistas. O que importa neste contexto contraditório é que a cidade gerou uma atmosfera favorável para a exibição da arte de rua. A população tem aprendido a conviver com a arte nas ruas e a reverenciá-la cada vez mais.
Talvez por isso que o poder efêmero da linha pintada em tinta vermelha nas paredes cariocas pelo artista Alê Souto, faz o seu observador acompanhar com os olhos um teimoso desmanchar de cubos em formas poligonais. Esta brincadeira de se desfazer foi depois transferida para cubos de verdade e empilhados uns sobre os outros. Desses cubos (que na realidade são caixas de papelão) a matéria se torna mais vulnerável e descartável. Assim, o artista encontra mais elementos para a sua pesquisa sobre o comportamento humano: os pictogramas que conduzem as ações de quem os manipula.
A partir do sistema de códigos impressos no papelão das caixas em desmanche, o artista recria novas formas e desenhos que sugerem sarcasticamente ações dentro de uma realidade caótica e mesquinha. Suas destiladas críticas sobre o consumismo e os valores descartáveis se evidenciam na engenharia geométrica dos volumes e formas construídos em cada uma das faces de suas caixas. Se alguma linha escorrer como se fosse sangue, acredite, não é mera casualidade. É a dor do descaso que aflige a alma do artista.
Marco Antonio Teobaldo
Curador
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